domingo, 3 de outubro de 2010

A China Han e o Ocidente

Este artigo trata da visão chinesa sobre o império romano e o Ocidente durante o tempo da dinastia Han, através de contatos econômicos e culturais pela rota da seda.


Escultura do Imperador Liu Bang. Liu Bang foi o fundador da Dinastia Han.

No período dos séculos 2 – 1 A.C a Dinastia Han manifestou uma preocupação específica em relacionar-se com as civilizações do Extremo Oeste, em função de razões políticas e econômicas. A ameaça constante dos “bárbaros” Xiong Nu ao longo da muralha norte motivou as primeiras expedições dos Han em direção ao Ocidente, em busca de alianças militares contra os nômades e, num segundo momento, para o desenvolvimento de relações comerciais. Os chineses acreditavam que a Pártia e os kushans poderiam ajudá-los no equilíbrio das fronteiras ocidentais, detendo os movimentos expansionistas dos povos das estepes provenientes da Mongólia e da Ásia central. Quanto aos romanos, no entanto, o império chinês ainda não conhecia com exatidão o seu papel na dinâmica das regiões do Oeste. É quase certo, portanto, que as primeiras missões enviadas pelos chineses em direção aos impérios e reinos do Ocidente possuíam um caráter duplo; o de investigar (conhecer e aprender mais sobre estas civilizações) e (quando possível), travar contatos diplomáticos.

O exemplo clássico desta iniciativa é a conhecida embaixada de Zhang Qian (em 139 A.C) ao Ocidente. No entanto, ela foi precedida por uma mudança na mentalidade chinesa acerca dos expedientes políticos e sociais a serem utilizados pelo Império. A sociedade, antes bastante fechada aos contatos com o exterior e autocentrada na sua própria cultura, começou a distender suas relações com as áreas que compunham sua periferia geográfica. Acreditamos que as pressões “bárbaras” vindas do Norte fossem apenas uma das motivações que levaram a China Han a se abrir para as influências vindas do Oeste e do Pacífico, pois o que estaria ocorrendo, na verdade, seria uma necessidade natural de escoar uma produção econômica cada vez maior e de aumentar o território do império em busca de terras que pudessem ser arroteadas por uma população igualmente crescente. Estes fenômenos promoveram um impulso na burocracia celeste na busca de soluções para administrar a expansão territorial e populacional. Uma proclamação famosa do Imperador Wu Di (141-87 A.C) sintetiza bem o espírito deste movimento: “Queremos heróis! Uma proclamação”.

Trabalhos excepcionais exigem homens excepcionais. Um cavalo indócil pode vir a tornar-se um animal valioso. Um homem que é objeto de ódio pode mais tarde realizar grandes obras. O que acontece com o cavalo intratável passa-se também com o homem arrogante: é apenas uma questão de treinamento. Nós, desse modo, ordenamos aos funcionários distritais que procurem homens de talento brilhante e excepcional, para se transformarem em nossos generais, nossos ministros e nossos emissários aos Estados distantes.”(Morton, 1986: 75).

Zhang Qian foi um destes cavaleiros de caráter excepcional que surgiu para responder aos apelos de Wu Di. Em 139 A.C, ele se ofereceu para negociar um tratado de amizade com os Yuezhi (ou Kushans) e promover uma aliança contra os Xiong-Nu (Hunos). Acompanhado de cem homens, foi logo capturado pelos “bárbaros”, que o detiveram por dez anos, tempo no qual o próprio Zhang casou-se com uma nativa e aprendeu a língua e os costumes do país.

Logrando fugir, retomou sua missão original e foi procurar os Yuezhi, descobrindo, porém, que estes haviam se deslocado em direção a Bactriana e que não tinham mais pretensões de enfrentar os povos das estepes, sendo reticentes em firmar uma aliança com os chineses e garantido, tão somente, sua simpatia pela causa Han. Nesta época, os Yuezhi estavam preocupados com a construção do futuro Império, aproveitando a fragilidade dos reinos greco-indianos. Zhang, no entanto, percebeu a importância destes povos para o equilíbrio do Extremo Oriente. Notou, inclusive, a enorme demanda de produtos chineses nos mercados da Ásia central e uma grande quantidade de mercadorias que não conhecia com precisão. Ao voltar para China, tendo concluído a embaixada do qual só restaram ele, sua mulher e um oficial, Zhang Qian foi recebido como herói. E sendo o oficial mais experiente de que os Han dispunham, em 115 A.C, enviaram-no novamente em missão para a Fergana e a Sogdiana.(Morton, 1986: 76-77) Nesta segunda viagem, levou presentes que foram despachados para todos os reinos da Ásia central, segundo os interesses políticos de Wu Di. Tais reinos são citados no Shi Ji como An Xi (Partia), Shengdu (Índia), Dayuan, Daxia e Kangju (reinos báctrios), o Grande Yuezhi (no futuro, Kuei shang), além de Estados vizinhos a esses, o que não exclui de forma alguma a possibilidade de emissários terem sido enviados até as fronteiras romanas (SJ 123).

Devido a esta política, em 91 A.C os Han já haviam conseguido regularizar suas relações com os vizinhos, o que apareceria em duas menções significativas sobre sua primeira embaixada direta para os An Xi:

“Quando a primeira embaixada foi enviada aos An Xi de Zhong Guo (Terra do Meio, ou China), o rei de An Xi ordenou que fossem recepcionados por vinte mil cavaleiros de sua fronteira até a capital. Tendo passado por várias cidades, foram recebidos na corte com todas as honrarias. Após o retorno da embaixada Han, os An Xi enviaram uma embaixada para conhecer e vislumbrar toda a grandeza do Império Celeste. Eles trouxeram inúmeros presentes, tais como grandes ovos de pássaro (avestruz) e malabaristas vindos de Li Kan (Síria)”. (SJ 123)

Eis aqui outra passagem pertinente, cita-nos Bangu:

“(...) os An Xi estão situados a 11,600 li de distância da capital do Império, Chang An. São vizinhos dos Kangju, Dayuan e fazem bordas com Diao chi (supostamente o nome da Babilônia).(...) Possuem inúmeras cidades, e seus navios mercantes vão até os reinos vizinhos. Ao seu leste está o Dayuezhi (o Grande Yue zhi)”.(HS, 96)

Estas duas menções mostram que os chineses haviam adquirido um conhecimento significativo sobre suas fronteiras e o funcionamento de seus vizinhos. Ao longo do Shi ji e do Hanshu vemos uma série de outras descrições dos reinos da Ásia central, que utilizaremos mais adiante.


Mapa mostrando o Império Han, territórios protetorados, Império
Kushana, Império Parto e o Império Romano entre 202 A.C e 220 D.C.

O desenvolvimento da política Han para essas áreas periféricas influenciou toda a organização do exército e o processo das campanhas de conquista e dominação dos territórios. Foram realizadas, entre 136 e 56 A.C nada menos do que 25 expedições militares tanto para o norte quanto para o sul. Os objetivos eram claros: guarnecer as rotas comerciais e o trânsito nas fronteiras, além de expandir os limites imperiais. Neste período, algo em torno de três milhões de colonos foram distribuídos em áreas conquistadas no nordeste da China (Morton, 1986:77). Fazendas especiais, integradas por postos militares ligados a um sistema de comunicação eficiente, compunham o perfil das periferias chinesas endógenas ao território.

Isso significava, na prática, que a dinastia Han havia compreendido existir um equilíbrio de forças entre as civilizações, do qual o seu próprio dependia. Por isso mesmo, o ramo da política externa foi incrementado com as numerosas embaixadas enviadas para o exterior, acompanhado de uma série de medidas de controle interno fortes e decididas. As diversas regulações proclamadas por Wu Di (-141-87 A.C) e por seus sucessores objetivavam construir uma estrutura produtiva capaz de gerar a maior quantidade possível de recursos negociáveis, beneficiando não só o Estado como todas as regiões submetidas ao poder direto do Império Chinês (Ibidem, 77-79). Havia na ideologia chinesa a crença em que o bem comum derivava do estímulo de todas as atividades produtivas, e o comércio, que havia sido tão combatido pela escola dos legistas no primeiro reinado Qin (século –3 A.C), foi incentivado de forma significativa, pois representava o envolvimento de uma série de atividades econômicas geradoras de capital para a sociedade.

Apesar de uma série de crises internas, tais como rebeliões e dissidências que ameaçaram a China do 1 D.C (Loewe, 1974), a retomada do poder pelos Han, após o interregno de Wang Mang, reativou a política expansionista do Estado. Havia ficado claro para esta dinastia que o desafogo da economia, bem como a manutenção da fronteira e da cultura chinesa, dependiam de uma ação constante sobre as áreas instáveis de sua periferia, sempre sujeitas à invasão dos “bárbaros” e ao desligamento do poder central. Isso se aplicava não só ao problemático norte, como também às áreas recém sinizadas da Coréia, da Indochina e da Ásia central. Como os romanos, os chineses tratavam de integrar as regiões fronteiriças com a divulgação de sua cultura, sua escrita e seus sistemas de valores, o que criava um grande sistema de dependência em torno do Império celeste. A organização do poder no Extremo Oriente estava fortemente vinculada à estabilidade dos Han, já que os mesmos eram responsáveis por grande parte do tráfico e distribuição comercial entre as áreas do Pacífico e a Índia, bem como sua força militar coibia a ação das tribos nômades não só sobre o território chinês como sobre as civilizações limítrofes.

Por isso mesmo, no período dos Han posteriores (23-221 D.C), as fronteiras chinesas iriam variar em relação às conquistas da Han anterior. Alguns territórios, abandonados ou perdidos durante as crises do período I A.C – I D.C foram alvos de novas campanhas militares que visavam retomar os antigos limites chineses. O sentido aí de “fronteira chinesa” fica bem claro se levarmos em conta que muitas comunidades de colonos nativos foram deixadas em total desamparo nos momentos de crise no início do século 1 D.C Se no sul este processo de reconquista foi bastante tranqüilo, no caso das problemáticas terras do norte foi necessária a presença do general Ban Chao para efetivá-la.

O que tornou especial o papel deste general na conjuntura chinesa foi sua capacidade decisiva de rearticular o poder do império nas áreas ocidentais. O Estado havia sofrido grandes golpes durante o malogrado período de Wang Mang, o que forçou mesmo o primeiro imperador dos Han posteriores, Guang Wu Di (25-57 D.C) a transladar a corte da destruída cidade de Chang Na (Xian) para Luoyang, situada mais a Leste. A ausência de tesouros para novas investidas comerciais era patente, e foi necessário um longo e paciente trabalho para recuperar as finanças do governo. Ming Di (57-75 D.C), herdeiro da política de austeridade de Guang, decidiu que o melhor seria dar continuidade as práticas administrativas de seu antecessor, tendo nomeado um funcionário de sua confiança para “Protetor das Regiões Ocidentais”, cargo cuja função era administrar os problemas relativos à fronteira Norte e a rota da seda. Esse oficial era o general Ban Chao, que começou aí sua carreira como estadista Han.


Jarra Chinesa do Período Han.

A primeira etapa de seu trabalho foi enviar missões diplomáticas e presentes para os reinos da Ásia central, bem como distribuir funcionários nas áreas ocupadas pelos chineses. A presença destes agentes burocráticos tinha um significado claramente coercitivo: os Han desejavam recuperar o que consideravam seu (Morton, p.80-82 e Grousset, p.30-35), e os funcionários estavam lá para garantir isso. Esta política não parece ter tido grande eficácia, já que somente após a intervenção dos exércitos a fronteira ocidental voltou ao controle da burocracia imperial.

Em 75 D.C subiu ao poder um novo imperador, Zhang Di, que afastou temporariamente o general de seu cargo por motivos políticos. No entanto, Ban Chao, disposto a recuperar seu posto, convenceu-o a retomar tal empresa, demonstrando que era possível fazê-lo empregando apenas uma reduzida força de oficiais experientes e dedicados. Com clareza, ele teria demonstrado ao imperador a viabilidade de seu projeto, no qual a rota da seda seria assegurada por um grupo de reinos amigos e fiéis, sem grande ônus para os cofres do Estado, contanto que lhes fossem garantidos certos direitos sobre as vias comerciais. Ao mesmo tempo, os interesses chineses ficariam salvaguardados, bem como as áreas dominadas diretamente pelos chineses poderiam ser retomadas. A figura de Ban Chao manifesta, no Hou Han Shu, a consciência que os chineses possuíam sobre o papel das periferias na manutenção do poder central, compreendendo que suas funções mantenedoras e difusoras da cultura e da força política eram importantes para a hegemonia dos Han. Precisavam, no entanto, ser estimuladas e implementadas, para que houvesse a reprodução constante do sistema social e econômico. O discurso de Ban Chao teria deixado isso bem claro para o imperador: era necessário vencer os inimigos, conquistar os amigos e educar os vizinhos.

Tendo conseguido a concessão de Zhang Di para operar, ele partiu com um exército de 70 mil homens em direção ao Oeste. Debelou uma rebelião que se instalara no Turquestão chinês, insuflada pelo apoio provável dos partos e/ou dos reinos greco-indianos da Ásia central. Durante 17 anos administrou e organizou as fronteiras, afastando as ameaças externas, garantindo a fidelidade de alguns reinos vizinhos, vencendo os nômades e regulando os pontos de apoio chineses na rota da seda. Como sugeria o protocolo, enviou novamente emissários para os reinos vizinhos, inclusive o famoso Gan Yin, a quem recorreremos ocasionalmente. Gan Yin ficou encarregado de vasculhar os acessos ocidentais até o reino de Da Qin (Roma), não tendo porém obtido sucesso devido a interferência dos partos, que o teriam coagido a voltar. Tal condição demonstra que há uma mudança clara no panorama político da época.

As relações entre chineses e os partos, até então amistosas, parecem ficar seriamente afetadas. Os motivos estão provavelmente ligados ao desejo da Partia de tentar se expandir em direção ao Oriente, ameaçando os territórios abandonados pelos chineses durante a crise do início do 1 D.C e, também, entrando em conflito com vários reinos indianos, principalmente o de Dayuezhi (Grande Yue Zhi), que nesta época havia se transformado na dinastia Kushana, sob o comando de Kujula Kadphises. A manobra dos partos de ocupar o poder na Ásia central no vácuo dos chineses e indianos foi muito mal sucedida; não conseguiram nenhuma grande conquista, e ainda tiveram que amargar uma série de movimentos políticos que visavam conter seus interesses. Estes transparecem no envio de embaixadas kushans para Roma (Cimino, p.17 –24), na troca de embaixadas entre os Kushans e os chineses (principalmente depois do estabelecimento de Ban Chao) e até mesmo no pedido de apoio aos Han, por parte da Armênia, contra as ingerências de seus vizinhos (HHS, 86);

“Durante o nono ano (97 D.C) as tribos bárbaras além da fronteira e o rei do país chamado Shan (Armênia), chamado de Yung Yu Diao, enviaram dois intérpretes identificados por jóias oficias de seus Estados. Hu di (89-106 D.C) concedeu-lhes o selo de ouro e fitas púrpuras, e para os oficias menores que os acompanhavam, concedeu-lhes pequenos selos, ouro, fitas e dinheiro. Durante o décimo ano de Yung Ning (120 D.C), o mesmo rei de Shan, chamado Yung Yu Diao, enviou outra embaixada, que foi recebida na presença de sua majestade, oferecendo-lhe músicos e malabaristas de presente. (...) o emissário afirmou: “temos homens vindos do oeste do mar (Cáspio). A terra a oeste deste mar é quem vós chamais de Da Qin (romanos). Ao nosso sudeste vocês poderão passar livremente para Da Qin.”(...) E no começo e no seguimento do reinado de An Di (107-126), (...) o Yung Yu Diao investiu um Da Du Wei (enviado tributário) (...) para garantir o selo de ouro e a fita de seda prateada, pedido proteção de nosso soberano”.

O que podemos perceber aí é que o governo de Ban Chao como “Protetor Geral das Regiões Ocidentais” serviu para manifestar, com clareza, os aspectos da necessidade de equilíbrio entre os quatro centros hegemônicos do sistema mundial. Os partos, dispostos a minorar sua posição complicada (e tentando consertar o erro estratégico de atacar as posições chinesas), já tinham enviado missões em 87 e 101 D.C oferecendo presentes aos chineses (HHS, 87):

“No reinado de Zhang Di (87 D.C), eles (os An Xi) enviaram uma embaixada oferecendo leões e Fu-pa. O Fu-pa tem a forma de um Lin (Unicórnio), mas sem o chifre. (...)”

E, após a missão de Gan Yin (o oficial chinês de Ban Chao delicadamente convidado a não prosseguir viagem até Roma):

“Durante o reinado de Hu Di (em 101 D.C), o rei de An Xi, Man Ku, enviou uma embaixada de enviados tributários que ofereceram leões e grandes ovos de um pássaro de Diao Chi”.

Embora romanos e chineses não tenham estabelecido um contato direto neste momento, os segundos citam diversas vezes a presença dos primeiros no Hou Han Shu e nos documentos subseqüentes. Os capítulos 86, 87 e 88, que são nossa fonte de informação, nos dão inclusive a idéia de um interesse constante, por parte dos chineses, em conhecer diretamente Da Qin (Roma). O volume de informações sobre os “sin” também aumenta significativamente, no Ocidente, nesta mesma época - como podemos constatar na documentação latina - o que sugere o conhecimento, por parte dos romanos, da onda de impacto provocada pelo avanço dos orientais.
Na visão chinesa, entretanto, este processo de relações políticas teve continuidade com a enviada de uma embaixada, por parte de An tun (o imperador de Da Qin), em 166 D.C Como afirma o Hou Han Shu:

“No reino de Huan Di (166 D.C), o rei de Da Qin, An Tun (Marco Aurélio) enviou uma embaixada que foi recebida na fronteira de Jinan (Anam, ou Cochinchina) oferecendo marfim, chifres de rinoceronte e cascos de tartaruga. Deste tempo datam-se as relações diretas entre o nosso reino e o deles. A lista destes tributos não continha quaisquer tipos de jóias, o que mostra que eles não conheciam a tradição” (HHS, 88; LS, 54).

Podem ser observados alguns pontos importantes neste trecho do documento: o fato de haver chegado uma missão que se afirmava ser representante dos romanos demonstra que os mesmos, fossem comerciantes ou diplomatas, sabiam a importância e do poderio do Império chinês. A dúvida sobre a autenticidade da embaixada foi formulada por Fan Ye, que afirmou que os enviados “não conheciam a tradição”, ou seja, seus tributos eram pobres. Como ele teria usado o protocolo da corte chinesa como referencial para caracterizar uma missão diplomática, automaticamente tais enviados poderiam não ser “autênticos”, o que fez com que, na dúvida, ganhassem concessões e presentes sem importância. Mas há um questionamento importante aí: este “protocolo” diplomático era somente chinês ou fazia parte da mentalidade do sistema mundial? Vemos que as outras embaixadas dos kushans, partos, armênios e greco-bactrianos sabiam bem como presentear o imperador chinês e ganhar o seu favor. Assim sendo, é possível que houvesse uma série de procedimentos em comum a todas essas civilizações para fazer suas trocas diplomáticas, as quais consistiam basicamente em presentes compostos por artigos de luxo e mercadorias estrangeiras.

O fato, também, desta missão se apresentar como enviada por An Tun (uma corruptela do nome dinástico Antonino, de Marco Aurélio) mostra que os chineses não ignoravam os acontecimentos políticos do Ocidente. Os romanos haviam vencido os partos numa batalha importante, e, tal como Ban Chao, Marco Aurélio fez (ainda que inconscientemente) as ondas do Ocidente ecoarem até o extremo Leste. E não é preciso lembrar que este imperador estava lutando para assegurar o domínio romano no Oriente Próximo, importante área econômica e fronteiriça.


A Rota da Seda existe essencialmente desde o século I A.C., seguindo os
esforços dos Hans em consolidar uma rota para o Ocidente. Por meio dela,
o famoso tecido chinês e outros produtos chegaram ao Império Romano.

Por fim, os chineses entenderam que a partir daquela data estabelecia-se uma relação direta entre eles e os romanos. Como Fan Ye estava escrevendo no período dos séculos IV – V D.C, devemos nos perguntar se os romanos continuaram a visitar os chineses depois desta data, o que é bem provável. Devemos na verdade entender estes “romanos” mais como ocidentais, propriamente, do que apenas os latinos. É bem provável que mercadores gregos, árabes, africanos, sírios e tantos outros que estavam dentro das fronteiras romanas eram assim compreendidos pelos escritores chineses. O que podemos discutir é se existiam relações de caráter oficial (embaixadas) que mantivessem o nível das relações entre os impérios. Da parte chinesa, as citações desaparecem depois desta “visita”. No entanto, devemos ter em mente que em 221 a Dinastia Han também estava destruída e, no caos que se seguiu, muitos documentos oficiais foram perdidos, o que limita nosso poder de análise neste ponto.

A análise dos aspectos políticos das relações entre os chineses e seus vizinhos demonstra que os primeiros adquiriram uma consciência específica sobre o papel das relações internacionais. A estabilidade e a preservação de seu modo de vida estavam profundamente vinculadas aos movimentos da fronteira, de onde provinham recursos e informações indispensáveis à sua existência. Tendo observado que o equilíbrio dos centros hegemônicos dependia em muito do controle que pudessem exercer sobre suas periferias, a dinastia Han tratou de assegurar ao máximo a ascendência sobre suas fontes econômicas e articular o seu funcionamento ao sistema econômico e político no qual estava inserida, o sistema mundial. Por este motivo vemos uma difusão tão grande dos produtos chineses ao longo das rotas que ligavam Ocidente e Oriente. Politicamente, porém, observamos através da documentação chinesa o surgimento de uma ideologia específica para o tratamento das questões internacionais, com a diplomacia alcançando um nível de complexidade e abrangência bastante sofisticado para a época.

Temos aí quatro centros hegemônicos, numa disputa por recursos econômicos e terras, que acabam fomentado uma teia de relações onde o equilíbrio das fronteiras é assegurado por uma série de manobras políticas claramente representadas pelo trânsito das embaixadas. As características destas missões demonstram igualmente o conhecimento de uma série de procedimentos de contato e etiqueta que eram dominados tanto pelos enviados chineses quanto por aqueles que foram recebidos em Chang An e Luoyang. Se houve a formulação de um código comum de contato entre essas civilizações, podemos supor então que a análise do caso é bem precisa, pois ainda que os chineses acreditassem que eram o centro do mundo (tal como Roma), seus procedimentos diplomáticos e políticos seguiam uma regra que estava além daquelas determinadas apenas por sua cultura, ou seja, um conjunto de procedimentos comuns a todas as civilizações integrantes do sistema mundial.


2ª Parte -->

Um comentário:

Klaus disse...

Muito interessante que os quatro superestados eurasianos tivessem consciencia da existencia um do outro e de que a manutencao de sua prsoperidade e segurança contra nomades do Norte dependia de que eles conseguissem ter um grau de comunicacao minimo que fosse, entre eles. Outros momentos de autocosnciencia eurasiana podem ter ocorrido durante China Tang e imperio mongol?