segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Novas descobertas no templo perdido

Quando Amenófis III morre, em 1.351 a.C., seu templo real, com os colossos sentados, torna-se o santuário mais luxuoso na necrópole de Tebas, junto ao Nilo. Mas o que havia sido construído como grandiosa fortaleza para a eternidade, cai no esquecimento dos terremotos, roubo de pedras e cheias do Nilo.


Os Colossos de Memnon são, por enquanto, as únicas obras
visíveis à distância do templo real de Amenófis III. Mas, 100 m
a oeste, reergue-se um outro par desses gigantes de pedra.

Quando Amenófis III morre, em 1.351 a.C., seu templo real, com os colossos sentados, torna-se o santuário mais luxuoso na necrópole de Tebas, junto ao Nilo. Mas o que havia sido construído como grandiosa fortaleza para a eternidade, cai no esquecimento dos terremotos, roubo de pedras e cheias do Nilo.

Os Colossos de Memnon sobreviveram a terremotos, enchentes do Nilo, tempestades de areia, Sol ardente, noites geladas, vandalismo e pilhagens. Há mais de 33 séculos, as duas estátuas de pedra reinam na margem ocidental do Nilo, em Luxor: gigantes sentados de quartzito vermelho, com aproximadamente 18 metros de altura, os rostos rachados voltados para o leste, as mãos estendidas sobre os joelhos, as pernas bem juntas, a ponta do dedo mínimo do tamanho da cabeça de um homem adulto.


Sob a direção da egiptóloga teuto-armênia Hourig
Sourouzian, ressurge das ruínas o santuário de Amenófis III.

Outrora se erguia atrás deles o maior santuário já erigido por um faraó, em sua própria memória: o templo real de Amenófis III, onde o soberano, ainda em vida, era simbolicamente venerado como um deus. Os sacerdotes lhe apresentavam oferendas para a continuação de sua vida no além.

Por volta do ano de 1.385 a.C., Amenófis III deu início à construção dessa "fortaleza para a eternidade até o infinito", para si e para seu pai divino Amon, "de arenito, totalmente coberto de ouro, os pisos feitos de prata, ricamente decorada com estátuas", como foi gravado no memorial de pedra daquela época. Na frente, pilones - duas torres trapezoidais flanqueando uma porta monumental - e imensos mastros de bandeira. Flores rodeavam a margem de um lago repleto de peixes. "Com uma casa de trabalho cheia de escravos e escravas, o despojo de sua majestade" de países distantes. Com armazéns abarrotados de tesouros do Oriente Próximo.

Mas o templo de Amenófis III não se mostrou uma fortaleza para o infinito.
Hoje, pouco se aproveita desse monumento de poder e de fé. As duas estátuas do faraó estão solitárias sobre um prolongamento das montanhas ocidentais tebanas, de 700 m de comprimento e 150 m de largura. Essa parte arenosa da região se destaca como um retângulo cinza entre a fértil planície.


Com mais de 500 m de comprimento, o templo real
de Amenófis III destaca-se perante as "casas de
milhões de anos" que os faraós, em honra de
seus deuses e de si próprios, mandavam construir
no lado oeste do Nilo, em Tebas. A ilustração
(acima) indica como a construção deve ter sido.
A imagem aérea mostra o que se podia ver ainda,
no início de 2009. Ao lado dos Colossos de Memnon,
na borda esquerda da imagem, por exemplo, os
tocos de colunas do pátio de colunatas bem à direita.

Ao norte, ele é separado dos campos por um canal de irrigação. Ao leste, a poucos metros dos gigantes, há um estacionamento para ônibus de turistas. Ao sul, o terreno se estende até uma estrada, que conduz do Nilo para cima. Além do canal de irrigação, há camponeses lavrando a terra.

Também na faixa poeirenta, com poucas árvores, ao oeste dos colossos de Memnon, homens fazem trabalho pesado no calor abrasador. Não para tornar o solo cultivável, mas para tirar-lhe segredos. São arqueólogos que, em meio a cepos de colunas, estátuas quebradas e memoriais de pedra, montaram suas barracas, mesas e guarda-sóis. Há onze anos, durante a época de escavações, que dura aproximadamente dois meses - entre meados de janeiro e início de abril -, os pesquisadores cavam aqui cada vez mais fundo, em direção ao passado. Em quadrados planejados, de dez por dez metros, retiram a terra do solo até uma profundidade de 4 metros, enquanto um sistema de bombeamento dispendioso abaixa o nível da água subterrânea.

Atualmente, os arqueólogos estão montando um quebra-cabeça estilhaçado como nenhum outro no Egito, cujas dezenas de milhares de peças, algumas delas pesando 450 toneladas, não se encontram espalhadas apenas em Luxor, mas em inúmeros museus ao redor do mundo. Mais de 280 pessoas - dentre elas cientistas, desenhistas e restauradores de 12 nações e trabalhadores locais - trabalham na tentativa de reconstruir, o máximo possível, as ruínas do templo de Amenófis III. Motivo: tentar decifrar como os deuses e o faraó eram cultuados em uma época em que o Egito era tão influente e abastado como nunca antes em sua história.

Seis horas da manhã, em março. O Sol nascente faz os Colossos de Memnon projetarem longas sombras, mergulha as barracas brancas de trabalho dos arqueólogos em uma claridade suave. Dos campos de cana-de-açúcar próximos ergue-se um vapor. O ar está agradavelmente fresco, por volta de 15° C. Ainda não há pó na atmosfera. Ouve-se apenas o bufar dos queimadores a gás nos balões com cordas de cativo. Mas logo surgem outros barulhos: ao gorjear agudo de um bando de tentilhões mistura-se o tinir constante de elos de corrente girando nas roldanas de uma polia.

Miguel López Marcos está agachado em uma estrutura de madeira sobre uma cova larga, com 3,5 metros de profundidade. Há anos o restaurador espanhol é responsável pela equipe de cargas pesadas. Abaixo dele, nas correias da polia, está pendurada uma deusa em granito, que foi descoberta há pouco. É Sekhmet, com cabeça de leão, considerada entre os faraós a vingadora do deus Sol e protetora do rei.


Especialistas egípcios recompõem uma das 40 figuras
colossais de Amenófis III que, naquela época, estavam
posicionadas entre as colunas do pátio de colunatas (1).
Protegidos por guarda-sóis, restauradores limpam esfinges
descobertas no início de 2008, no lado leste do terreno (2).

Vagarosamente, trabalhadores egípcios puxam a estátua de 1,80 m para cima. Eles murmuram, uns para os outros, comandos curtos: "Iftah aleik": "Puxe para seu lado". "Ahsan qeda": "Assim é melhor." Somente meia hora mais tarde, quando a estátua se encontra livre e debaixo do tripé da polia, o tom aumenta. "Irfa! Irfa! Hat el-arabijja!": "Para cima! Para cima! Vá buscar a carroça!"

Cuidadosamente, a deusa é colocada na carroça. Doze homens se alinham diante dela, puxando as cordas. López Marcos e outros quatro empurram por trás o achado cheio de lama. Um arranque põe a carroça em movimento.
Com toda cautela, os homens transportam para o pátio da oficina de restauração - a aproximadamente 50 m de distância - a estátua da deusa, em forma humana e com o disco solar sobre a cabeça de leão: a única construção de alvenaria em torno da escavação. Ainda nessa manhã, uma especialista em conservação de granito negro livrará a deusa-leão dos restos de lama e cal.

Até agora, os arqueólogos acharam mais de 80 esculturas e grandes fragmentos de esculturas de Sekhmet nesta escavação, todas diferentes umas das outras. A maioria se mostra sentada, outras, em pé. Diferenças sutis se revelam apenas sob um exame mais acurado, como, por exemplo, com que ornamentos os escultores cinzelaram a vestimenta da deusa na pedra.


Recomposição do colosso de Amenófis III
levou cinco. A cabeça é uma cópia.
A original foi embarcada para a Europa
por "catador" de estátuas, há 200 anos.

É possível que em outros tempos fossem encontrados, no santuário de Amenófis, em torno de 40 colossos do rei, com aproximadamente 8 metros de altura. Havia também mais de mil figuras de deuses, em forma de animais ou humana, entre elas um hipopótamo quase em tamanho natural, de alabastro branco, e uma esfinge-crocodilo, meio leão, meio réptil, também de alabastro: obras de arte como nunca antes foram encontradas em lugar algum.

No século 14 a.C., a nação junto ao Nilo vive a "idade do ouro". Desde os tempos de Tutmés III, o reino dos faraós é a potência de liderança na região oriental do Mar Mediterrâneo. Quando Amenófis III, bisneto do rei guerreiro, ascende ao trono em 1388 a.C., ele herda um império que vai desde o Norte da Síria até a quarta catarata do Nilo.

A cheia do Nilo é estável e traz ao reino colheitas fartas. Navios mercadores velejam aos portos da região oriental do Mar Mediterrâneo. Plaquetas de cerâmica vitrificada com o nome de Amenófis III, provavelmente pingentes de fornecimentos de presentes, se encontram em muitos lugares da região do Mar Egeu. Sabiamente, o faraó assegura as relações com os grandes reinos orientais e com os príncipes de cidades da Síria e da Palestina, por meio de acordos. Parte da correspondência a respeito está preservada em tábuas de argila, em escrita cuneiforme.

Em suas cartas, os grandes reis se dirigem a Amenófis III como "meu irmão". Já os vassalos lhe prestam respeito pelo tratamento "meu Sol, meu senhor". Constantemente, o conteúdo das cartas fala sobre os casamentos diplomáticos, por meio dos quais Amenófis III reforça laços de amizade, fortalecendo, ao mesmo tempo, a posição de supremacia do Egito.


Nomes de Amenófis III, escritos em molduras
ovais (cartuchos), decoram o cinto de uma estátua,
feita do quartzito rosa do Gebel el-Ahmar,
perto do Cairo (4- veja na ilustração ao lado).
A estátua ficava no lado norte do pátio de colunatas.

A cada matrimônio, presentes valiosos mudam de proprietário: metais nobres, cavalos, lápis-lazúlis, pomadas perfumadas. Para uma noiva da casa real da Babilônia, Amenófis III envia uma "dádiva matinal", um presente que o esposo dá à esposa na manhã seguinte ao casamento: meia tonelada de ouro. Assim, o pacto se paga para todos os participantes. Mas quando o rei da Babilônia pede a mão de uma princesa egípcia em casamento, a resposta é clara: "Desde tempos antiquíssimos, uma filha do rei do Egito nunca foi dada em casamento a qualquer um!"
No harém de Amenófis III, ao lado da filha do rei da corte babilônica, vivem também princesas de Arzawa, da Ásia Menor, e do reino de Mitani, no Eufrates superior. Mas para se tornar a "grande esposa real", o faraó escolhe Tiy, a filha de um funcionário público. Mais notável do que sua origem é o que ela se torna: nunca antes a mulher principal de um faraó possuiu tanta influência. Amenófis III lhe consagra um templo próprio. Em escaravelhos comemorativos, torna pública sua ascendência não real para além do vale do Nilo, e concede a seus pais a rara honra de um túmulo no Vale dos Reis.

Juntamente com Tiy, que em representações de seu esposo frequentemente aparece ao seu lado, Amenófis III se vê como protetor do Egito, responsável pela fertilidade da terra e a prosperidade de seus súditos. Finalmente, ele começa a se identificar com o deus Sol, se autodenominando "brilhante disco solar de todos os reinos".


Na Antiguidade, os ladrões de pedras demoliram o templo
de Amenófis III até o alicerce (no fundo, um bloco restante
da fachada do pátio de colunatas (1). Nas valas formadas,
os mesmos deixavam para trás o que não tinha utilidade,
como por exemplo, estátuas da deusa-leão Sekhmet (2).

O rei manda construir, cada vez mais, novos templos. Os já existentes são ampliados."O coração de sua majestade estava em paz ao se construir monumentos grandiosos", ele anuncia em um memorial de pedra.
Nenhum dos santuários simboliza mais essa busca pelo apoio dos deuses do que o templo real de Amenófis na margem oriental do Nilo, do outro lado de Tebas (a atual Luxor).
Inscrições em rochas, nas pedreiras perto do Cairo, comprovam que o faraó, já no seu primeiro ano de governo, manda extrair e bater pedra calcária fina. O material seria utilizado na construção de sua fortaleza para a eternidade.

A construção do templo termina após quase 30 anos de trabalho, em 1358 a.C. Nesse ano, Amenófis usa a residência real como cenário de sua primeira festa Sed, o misterioso ritual festejado tradicionalmente pelos faraós em seu 30º ano de governo e que tem apenas uma serventia: a renovação mágica da força real e a plenitude de poder pelos deuses.


Na oficina de restauração, especialistas procuram
lascas de pedra que se ajustem à cabeça de granito.

Durante a construção do templo, Amenófis permanece cada vez mais em Tebas, onde lhe é edificado um amplo palácio, perto do canteiro de obras de seu templo real. Na frente, os trabalhadores escavam um lago artificial, com um quilômetro de largura por dois de comprimento, ligado ao Nilo por meio de um canal.


2ª Parte -->

4 comentários:

Hugo Hoffmann disse...

Parabéns pelo blog. Muito bom trabalho mesmo... é ótimo encontrar blogs de tão valioso conteúdo assim.

Eber pastor Severino disse...

"",.; MEUS PARABENS PELO EXCELENTE BLOG, EXTRAORDINARIO E VALIOSO TRABALHO DE CONHECIMENTO E EXCLARECIMENTO CULTURAL DE SUMA IMPORTANCIA PARA TODOS. UM GRANDE ABRAÇO !!! ,.;""

darly disse...

Parabéns pelo seu blog, gostei muito mesmo! Q o Senhor continue te usando para aprimorar nossos conhecimentos, fique com Deus!

claudionetospaceslivecom disse...

Boa noite, gostei muito desse blog, eu gostaria se fosse possivél me mandar sobre os Amalequitas