domingo, 6 de dezembro de 2009

O Império do Sol

Os incas formavam um povo religioso, de base agrária e com brigas eventuais pelo trono, mas não conseguiram resistir à pólvora dos espanhóis, que derrubaram o império da América do Sul


Os incas eram excelentes arquitetos. Macchu Picchu, na imagem, estende-se de maneira harmoniosa sobre uma cordilheira peruana. Somente em 1911, quando o explorador norte-americano Hiram Bingham chegou ao local, o resto do mundo tomou conhecimento dessas imponentes ruínas.


Quando o imperador inca Atahualpa foi capturado pelo espanhol Francisco Pizarro, em 16 de novembro de 1532, a história de uma grande civilização se aproximava de uma mudança radical - que a dividiu em duas facções bastante distintas. O líder, que seria executado no cativeiro no ano seguinte, representava uma das últimas resistências do povo andino perante os conquistadores europeus, e sua queda abriu espaço para o agravamento do processo de ruptura daquela sociedade - enquanto uma parte formou uma resistência em Vilcabamba, os habitantes de Cuzco firmaram um governo aliado aos invasores da Espanha.

A civilização inca, de forma geral, florescera desde muitos séculos antes da chegada dos conquistadores europeus, que vieram à América Latina com suas naus, cavalos e, principalmente, a pólvora de suas arcabuzes, uma das armas mais avançadas da tecnologia bélica da época. Naqueles tempos anteriores à guerra contra Pizarro, os povos andinos eram compostos por indivíduos que viviam basicamente da agricultura, embora a propriedade pertencesse ao Estado, da caça e da pesca, da produção de peças de artesanato, com cerâmica, madeira e tecidos, e, segundo alguns estudiosos, até mesmo do comércio com sociedades vizinhas. Especula-se, inclusive, que eles negociavam mercadorias com maias e astecas, por meio do Oceano Pacífico, mas não há evidências concretas para comprovar essas teorias.

MODA E RELIGIÃO

No dia-a-dia, os homens vestiam túnicas até a altura dos joelhos, sem mangas, durante o verão. Nas estações mais frias, trajavam uma capa ou manto de lã por cima, como forma de se proteger das rigorosas quedas de temperatura na altitude dos Andes. Já as mulheres cobriam o corpo com panos mais grossos durante todo o ano.

Os rituais incas, que às vezes envolviam sacrifícios de humanos e animais, eram em prol da ordem social


Huascar (à esquerda) perdeu o trono do império inca para o irmão Atahualpa (à direita), que posteriormente foi capturado pelo espanhol Francisco Pizarro, em 16 de novembro de 1532.


Nos pés, os indivíduos de ambos os sexos calçavam sandálias trançadas. Já na cabeça, o vestuário incluía gorros de lã. A indumentária era complementada com jóias, pulseiras e colares - mesmo entre os homens, que também tinham o costume de confeccionar peças com objetos retirados de inimigos mortos em combate.

De forma geral, era uma sociedade bastante complexa, que fascina turistas de todo o mundo até hoje. Basta observar que, todos os anos, legiões de turistas se aglomeram nas ruas da outrora imponente Macchu Picchu, eleita em 2007 uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.

Sabe-se ainda que os incas eram pessoas muito religiosas. Adoradores de diversos deuses, as populações realizavam inúmeros rituais sagrados, sendo que muitos deles envolviam sacrifícios de animais e até mesmo de pessoas. De forma geral, esses ritos serviam para organizar a vida social nas cidades e colocar ordem no mundo incaico. Esses rituais funcionavam como uma espécie de troca com as divindades, com a natureza e com os mitos - tudo em prol da ordem.

CONFLITOS INTERNOS


Ilustração do cronista Felipe Guaman Poma de Ayala (1536 - 1616), que retratou em sua única obra, El Primer Nueva Corónica y buen Gobierno, a maneira cruel que o povo do Peru era tratado pelos espanhóis.


Contudo, nem essa intensa busca pela ordem foi capaz de pacificar completamente os incas. Não se pode dizer que eles formavam apenas uma grande civilização. Hoje, os contemporâneos têm a visão de que Macchu Picchu e Cuzco representavam o esplendor de uma espécie de país unificado. No entanto, isso não ocorria.

De acordo com a arqueóloga Cristiana Bertazoni Martins, doutora em Estudos Pré-colombianos pela University of Essex (Inglaterra) e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), o império inca nunca foi, de fato, homogêneo.

Ela argumenta que o povoamento pode ser chamado de Tahuantinsuyu, ou seja, o "império dos quatro cantos" (Tahua = quatro, e suyu = cantos), um território que vivia sob o domínio dos incas, mas que na verdade possuía em sua formação centenas de outros grupos étnicos, anexados ora de forma pacífica, ora por meio da força. As brigas, portanto, não eram incomuns.

Cristiana explica que, por conta dessa mistura, não era raro que um desses numerosos grupos se rebelasse contra o poder central do império, que ficava em Cuzco.

E foi justamente essa ruptura que contribuiu para a queda do reino: com a chegada dos espanhóis, algumas dessas minorias decidiram se aliar aos conquistadores, pois viram nisso uma grande oportunidade de conseguir a liberdade.

Assim, quando Pizarro desembarcou de sua embarcação, em 1532, provavelmente encontrou uma sociedade com inúmeros conflitos internos e, desta forma, aproveitou a situação para subjugar os inimigos - usando inclusive a ajuda de nativos durante a campanha.


Fotografia de Macchu Picchu tirada em 1911, durante a expedição de Hiram Bingham.


COMÉRCIO COM OS MAIAS E ASTECAS

Há quem acredite que os incas desenvolveram uma rota comercial para fazer negócios com os povos da região meso-amecicana. Para Cristiana Bertazoni Martins, arqueóloga da USP, essa teoria já está ultrapassada.


Teriam os incas traçado algum tipo de rota comercial para regiões mais distantes dos Andes, como na área conhecida como mesoamericana? Seriam eles navegadores e comerciantes de âmbito "internacional"? Para alguns historiadores, a resposta para essas questões é afirmativa. Desse modo, teria sido estabelecido um contato importante entre os incas, maias e astecas. Mas essa teoria não pode ser plenamente comprovada, pois ainda faltam evidências científicas suficientes para a realização de mais estudos.

Segundo a arqueóloga Cristiana Bertazoni Martins, da Universidade de São Paulo (USP), alguns pesquisadores acreditam que havia, sim, um comércio de longa distância, que usava o Oceano Pacífico para ligar os Andes com a região meso-americana. Isso pode ter aproximado os incas de outros povos importantes e numerosos da região, como astecas, maias e outras etnias menos conhecidas.

Cristina no entanto, acredita que esse tipo de tese já foi superada pelos pesquisadores. "Creio que o hábito de aproximar os incas, maias e astecas parte de uma perspectiva já ultrapassada, de dar mais valor àquelas civilizações que construíram grandes monumentos arquitetônicos.

Apesar da não existência desse tipo de arquitetura monumental na área amazônica, por exemplo, pesquisas recentes têm mostrado que as sociedades que se desenvolveram na região da floresta eram muito mais complexas e numerosas do que se acreditava até bem pouco tempo." Deste modo, Cristiana acredita ser mais plausível imaginar que o comércio funcionava melhor entre incas e os povos localizados nas regiões amazônicas.

Com ou sem comércio, o certo é que os incas tinham um sistema econômico bastante sofisticado para a região e para a época. Como a economia era baseada na agricultura, a civilização conseguiu desenvolver esquemas complexos de irrigação, que ajudaram a levar água às plantações localizadas em locais elevados e em terrenos mais áridos.

De forma geral, também podemos considerar que a reciprocidade era uma prática recorrente entre os incas e que regulava a economia local. Em troca dos serviços para a construção de determinada obra, por exemplo, os indivíduos receberiam bens de consumo, como peças de vestuário.


2ª Parte -->

Um comentário:

Jacomo Marincek disse...

Um belo texto,mais fica uma pergunta,então os incas não foram totalmente dizimados,e podendo ser encontrado descendentes até hoje?